A adesão de quem pode ficar em casa às
recomendações de isolamento social como forma de retardar o avanço do
novo coronavírus (covid-19) vem provocando mudanças nos hábitos de
consumo em todo o mundo. Uma delas, em particular, preocupa
especialistas e autoridades em saúde: o eventual aumento do consumo de
bebidas alcoólicas no ambiente doméstico.
Dados da organização não governamental (ONG) Alcohol Change UK
apontam que, no Reino Unido, uma em cada cinco pessoas afirma que passou
a beber mais em casa desde que, em 24 de março, o governo proibiu as
pessoas de saírem às ruas, salvo para comprar itens essenciais. Além
disso, segundo a ONG, a crise sanitária e o medo de seus reflexos
econômicos potencializam a ansiedade, tornando ainda mais difícil para
as pessoas largar o vício em álcool.
No Brasil, a organização Alcoólicos Anônimos (AA) afirma ter
identificado um aumento de busca de informações sobre o trabalho do
grupo. “Observamos que, diante de tudo o que está acontecendo, pessoas
que nunca tinham procurado informações sobre o AA passaram a procurar
ajuda. Visitando nosso site, ficaram sabendo das reuniões a distância,
entraram na sala e começaram a participar” disse a psicóloga Camila
Ribeiro de Sene.
Para dar continuidade ao atendimento, mesmo durante a quarentena, o
grupo tem recorrido ao uso da tecnologia e encontrou nos aplicativos de
videochamada uma alternativa às reuniões presenciais que os cerca de 5
mil grupos espalhados pelo país promoviam até o novo coronavírus chegar
ao país. “A tecnologia tem nos permitido superar distâncias,
mantendo-nos próximos em um momento difícil”, disse a psicóloga,
explicando que muitos dos internautas que chegam a uma das salas do AA
por meio do site da organização nunca tinham pensado em frequentar as
reuniões presenciais. “Algumas [pessoas] se sentiram mais à vontade, já
que não precisam ligar suas câmeras nem mesmo usar seus verdadeiros
nomes”, contou Camila, garantindo que as ferramentas digitais têm se
mostrado eficazes e seguras – desde que observadas as recomendações do
grupo.
Na página do AA,
é possível acessar a reunião online que ocorre todos os dias, às 20h, e
é aberta a qualquer pessoa. O programa necessário pode ser facilmente
acessado pelo computador, tablet ou telefone celular do tipo smartphone.
Além disso, muitos grupos, em muitas cidades, criaram seus próprios
espaços de encontro digitais, recorrendo inclusive ao WhatsApp.
“Quem já frequentava um grupo presencial sente falta, pois surgem
afinidades entre as pessoas. Manter-se sóbrio é um grande desafio,
principalmente em situações de estresse, que favorecem um maior consumo
não só do álcool, mas também de outros produtos, como o cigarro. E neste
momento, confinadas, preocupadas, as pessoas, em geral, estão
emocionalmente fragilizadas. Daí a importância de oferecermos suporte”,
concluiu Camila.
A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead),
por sua vez, mobilizou médicos voluntários para oferecer,
gratuitamente, atendimento psicológico e psiquiátrico online a
dependentes químicos e seus familiares. Com foco em pessoas de baixa
renda, o auxílio pode ser agendado pelo número de Whatsapp (51)
98053-6208. O atendimento é diário, das 8h às 22h. Iniciada no fim de
março, a ação deve ser encerrada neste domingo (26).
A professora do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) Zila Sanchez disse que algumas pessoas,
equivocadamente, tendem a ver nas bebidas alcoólicas uma maneira de
relaxar, por considerar que o álcool diminui a ansiedade. “O problema é
que o álcool tem um alto potencial de causar dependência e intoxicação.
Seu consumo frequente aumenta as chances de ocorrência de
acidentes domésticos e de episódios de violência, além de agravar
transtornos psíquicos, como a depressão. Para não dizer que ele facilita
a contaminação pelo próprio coronavírus, já que é um imunodepressor que
afeta a imunidade”, acrescentou Zila.
Números do setor
O Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) informou à Agência Brasil que
ainda está analisando o impacto da pandemia sobre o setor. Ainda
assim, antecipou que, devido ao fechamento de bares e restaurantes e ao
cancelamento de grandes eventos, a tendência é de uma queda nas vendas
gerais. A Heineken afirma que, em março, as vendas de cerveja da marca
ficaram 20% abaixo do resultado do mesmo mês de 2019. Tanto a Heineken
quanto o SindiCerv não detalham os resultados das vendas em
supermercados, hipermercados, mercearias e outros estabelecimentos
varejistas.
A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou que o
resultado das vendas de março, quando o vírus começou a se espalhar pelo
país, só serão conhecidos no início de maio. Já a consultoria Kantar,
que monitora o comportamento dos consumidores a fim de identificar
tendências de negócios, observou que, no início de abril, a venda de
cervejas e bebidas destiladas no varejo registrou crescimento. A
comercialização de cervejas, de acordo com a Kantar, aumentou 22,5% na
primeira semana do mês em comparação com a última semana de março
Fonte: Agência Brasil
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